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Você já se sentiu um ET? Uma reflexão sobre a solidão dos homens gays

Apesar dos direitos, a depressão, suicídio e as drogas continuam em alta no meio LGBT.

Késsio Guerreiro - Publicado: 23/03/2017 15:43 | Atualizado: 23/03/2017 17:22
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Como explorar algumas questões quando elas nos atravessam de maneira tão direta?

Neste artigo vou falar um pouco sobre o impacto que senti ao ler o texto Todos juntos, todos sós: a epidemia da solidão gay, publicado recentemente no blog Lado Bi, traduzido da sua versão em inglês do Huffignton Post e escrito por Michael Hobbes.

O autor discute questões ligadas ao meio gay masculino a partir do seguinte paradoxo: “a comunidade LGBT obteve mais progressos em questões de aceitação legal e social que qualquer outro grupo demográfico na história”, apesar disso o índice de depressão, suicídio e abuso de drogas não tem diminuído entre homens gays. O que poderia explicar isso?

Na direção de pensar uma resposta, o texto passa por memórias e percepções de Hobbes, relatos de si e de seu círculo de amigos e também cita dados estatísticos elaborados para a realidade dos Estados Unidos e Canadá.

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Me chamou a atenção o fato dos homossexuais terem de 2 a 10 vezes mais chances de se suicidarem ou de passarem por uma depressão profunda, segundo estudos da Comunity-Based Research Center e do Departamento de Saúde Pública da Inglaterra.

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Here to help, http://here-to-help.org/wp-content/uploads/2015/11/By-Chetan-Menaria-lonely-figure.jpgHere to help

A solidão gay e o “estresse de minoria”

estudo do pesquisador canadense Travis Salway, diz que essa realidade se concentra entre os homens. Em sua investigação, Salway procurou entender esse quadro mais a fundo e chegou a um conhecido fenômeno entre pesquisadores chamado “estresse de minoria”.

Em linhas gerais, consiste no fato de que o estresse pelo qual minorias passam é maior do que a média, uma vez que, além das dificuldades cotidianas de cada fase da vida, há também uma série de questionamentos sobre os quais temos que permanecer silenciados.

No caso gay, isso leva à incorporação de um padrão de comportamento de ser rejeitado que vai muito além da própria vida dentro do armário; segundo o pesquisador, até mesmo para os gays que não sofreram para se assumir ou não passaram qualquer outro tipo de discriminação.

Hunffington Post, http://www.huffingtonpost.fr/benjamine-weill/le-rap-denonce-aussi-la-solitude-des-etres/Hunffington Post

A realidade dos LGBTs brasileiros

Como podemos pensar tudo isso no caso da realidade brasileira? Confesso que este foi um desafio. Saí em busca de dados e descobri alguns parcos e escassos, produzidos pela associação Grupo Gay da Bahia (GGB) ou pela Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (RedeTrans).

Constatei “na própria carne” efeitos da ausência do Ministério de Direitos Humanos, extinto no governo atual, e como isso nos faz voltar ao estado de sermos sujeitos invisíveis para as políticas públicas (o que foi feito do Disque 100?).

O pouco que sabemos não é nada animador. Segundo relatório do GGB, em 2016, 343 pessoas LGBTs foram mortas no Brasil, levando ao número de uma morte a cada 25 horas. Procurei pelo relatório em si, mas encontrei dados sobre o último ano apenas através de notícias, como esta do portal G1.

Trata-se de um número bastante impreciso, pois leva em conta apenas casos publicados na mídia e internet, além de informações pessoais às quais a associação teve acesso.

O que se conclui é que aqui muitos dados ainda terão que ser produzidos até o momento em que poderemos nos dar “ao luxo” de saber, com melhor precisão, informações detalhadas sobre a diversidade de fenômenos que perpassam o universo LGBT brasileiro.

Medo de ficar sozinho para o resto da vida

Tudo isso, entretanto, não nos impede de explorar um pouco mais essa questão da solidão no universo gay masculino. Tal como Hobbes, não raras vezes, ouço de amigos gays o medo que sentem de ficar sozinhos na vida, de envelhecer. Um deles me disse recentemente:

“Tenho quase quarenta anos e até esse momento da minha vida só me dediquei para a parte profissional, nunca foquei em ter um marido, família e filhos. Ultimamente, tenho tido muito medo de ficar sozinho para o resto da vida”.

A questão do envelhecimento no meio gay, que preocupa muitos de meus conhecidos, é abordada no documentário “Flores secas”, de Acácio Rocha, um interessante caminho para quem deseja refletir mais sobre essa questão.

Polari Blog, http://polariproject.com/PolariBlog/page/2/Polari Blog

O próprio meio gay pode ser cruel

Além de tudo isso, o artigo de Hobbes fala como o próprio meio gay pode ser cruel. Toda a liberdade sexual que muitos de nós vivenciamos após a saída do armário torna-se uma espécie de fuga para não termos que lidar com questões mais complexas que nos atravessam como perdas, solidão ou a própria rejeição de outros gays.

A constatação de que se assumir gay não é a fonte de toda a felicidade pode ser eclipsada diante de fugas para o sexo ou drogas.

Abro a tela do celular, instalo um aplicativo, registro uma conta e, daí em diante, surge uma série de fotos… na maioria delas, não vejo um rosto, mas sim um abdômen ou peitoral definidos, fotos de paisagens e coisas ou, ainda, casos em que não há foto alguma.

Puxo papo com um desses perfis e logo sou questionado sobre o que procuro por ali; caso a resposta não seja apenas sexo (ou pelo menos algo que contemple isso), fico sem resposta. Cria-se um flerte – se é que podemos chamar assim – no qual não importa muito tua identidade, pensamentos e desejos, apenas as características físicas e sexuais.

Tudo isso mostra como corpos se transformam em mercadorias a serem consumidas; um consumo que, como aponta Hobbes, torna-se muitas vezes tão excessivo quanto a facilidade propiciada pelo uso desses aplicativos.

Não poucas vezes, ouvi de alguns amigos meus, gays negros, como eles se sentiam rejeitados por outros gays, sobretudo enquanto potenciais parceiros sexuais e afetivos. O relato escrito no Tumblr BichaNagô é um bom exemplo disso.

Tal como Hobbes observa para a realidade americana, tudo aquilo que foge ao padrão idealizado do gay branco, rico e não afeminado transforma-se em motivo de segregação dentro da própria comunidade gay, aquela mesma que tínhamos achado que nos acolheria nos tempos em que habitávamos o armário.

O filme “Bichas – o documentário”, de Marlon Parente, aborda muitas dessas questões a partir de relatos de algumas bichas brasileiras.

Shortfilms, http://shortfilms.org.uk/events/2014-01-14-new-shorts-18-gods-lonely-men-1-under-attackShortfilms

O poder de ressignificar nossas histórias

Diante de tudo isso, além de minhas próprias vivências, me pus a pensar em uma possível saída para o destino fadado à solidão e reprodução de comportamentos que nos fazem tanto mal. Uma resposta possível me veio através de um vídeo chamado “Cê já se sentiu um ET?”, feito pelo cineasta Fernando Grostein Andrade e postado em seu canal no Youtube.

Bastante comentado nos últimos dias, sobretudo pelo fato de Fernando ser fundador da página Quebrando o Tabu, ser irmão do apresentador Luciano Huck e ter declarado abertamente que é gay, o vídeo é de muita sensibilidade.

Logo nos primeiros segundos, aparece na tela a palavra “experimento”, seguida por imagens mostrando diferentes elementos da profissão e do dia-a-dia de Grostein (seus cachorros, equipamentos, etc.) e, por fim, ele surge dizendo que está em frente as câmeras como um experimento a fim de poder falar melhor com os espectadores sobre sua vida, entre outras coisas.

Passando por diferentes memórias, vídeos antigos com sua família e outros de seu acervo pessoal, o cineasta vai nos contando como foi a perda do seu pai, sua adolescência com hobbies um tanto quanto excêntricos e o bullying que sofria por agir diferente dos demais meninos da sua idade.

Misturado a tudo isso, narra aquilo que muitos de nós (gays, lésbicas, transexuais e todos outros que fogem do padrão cis-heteronormativo) passamos em nossas vidas: dar-se conta de que não gostamos de meninas (ou meninos), contar para nossas famílias e a reação primeira delas, a conquista do apoio de familiares e amigos, ao mesmo tempo em que descobrimos, dentro de nós mesmos, que está tudo certo em ser gay.

Ao falar sobre essa questão, ele ressalta também a importância que viver um grande amor teve para seu entendimento de que estava tudo bem, não havia nada errado nesse jeito de ser. Em seguida, destaca alguns de seus trabalhos com os quais pôde se envolver com a luta LGBT e, ao final do vídeo, escreve:

“Esse experimento é em busca da minha felicidade. Encontro ela ao contar histórias”.

Pensei muito, ao longo dos últimos dias, sobre como é poderosa essa estratégia de contar nossas próprias histórias. Não digo que todos nós temos que fazer um vídeo no Youtube contando tais coisas. O exercício pode ser individual, apenas.

Durante a tarefa, o importante é que a gente se dê conta de como a vida é um experimento em si; de como nossas lutas e desafios enquanto gays são muitos, por vezes bastante difíceis, mas que mesmo assim não nos reduzimos a isso.

Quando assisto ao vídeo de Grostein e vejo-o resgatar momentos de sua infância nos quais brincava com seu pai ou com a tia, que tanto ama, entendo a importância em revisitar esses bons momentos.

Seria como recontar nossa história (mesmo que apenas para nós mesmos, caso você não seja um cineasta) a fim de nos darmos conta de que a opressão que sofremos antes não tem que ser reproduzida sob outros moldes e nem se tornar em “estresse de minoria”.

É contar uma história de felicidade e não de solidão e vazios a serem preenchidos com coisas que, no fim das contas, não nos preenchem.

Assista ao vídeo “Cê já se sentiu um ET?”:

Fica a reflexão

Michael Hobbes provoca uma reflexão de que a força está em nossa diferença e não o contrário. “O que nos afasta do padrão pode ser a fonte daquilo que nos atormenta, mas também é a origem de nossa presença de espírito, nossa resiliência, nossa empatia, nossos talentos superiores para nos vestirmos e dançarmos e cantarmos karaoke. Temos que nos dar conta disso ao mesmo tempo que lutamos por leis mais justas e ambientes mais amigáveis – e descobrimos uma maneira de sermos mais gentis uns com os outros.”

E finaliza com algo que aprendeu:

“Os gays sempre disseram para si mesmos que tudo estaria bem quando a epidemia da Aids estivesse sob controle. Quando isso aconteceu, tudo ficaria bem quando nós pudéssemos nos casar. Agora, tudo vai ficar bem quando acabar o bullying. Estamos sempre esperando pelo momento em que poderemos sentir que não somos diferentes dos outros. Mas a verdade é que nós somos diferentes. Já está na hora da gente aceitar e aprender a lidar com isso.”

Fonte(s): Lado Bi, Youtube - Grosten Andrade, Public Health England, Academia Edu - Comunity-Based Search Center, Ano Zero, G1


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Arquiteto especialista em planejamento urbano. Como um bom amante da escrita, usa seu conhecimento para filosofar sobre as cidades e a vida.
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